Sónia Moreira

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Como médica e mãe criei este espaço de partilha de informação e de experiências. Ora mais formal, com referências bibliográficas científicas fidedignas para manter os interessados sobre o tema o mais atualizados possível. Ora mais informal, mostrando o lado mais humano dos médicos e pondo a descoberto alguma da experiência que tenho adquirido nestas “areias movediças” que são a Maternidade.

Os protagonistas deste blog são o Pedro, o Pai e o Pirata, rafeiro que adotamos em Junho de 2015 sob o olhar atento desta Mãe/ Esposa/ Médica. Leiam, coloquem dúvidas e partilhem, prometo escrever sobre os mais variados temas que despertam naqueles que convivem com mais “Pedros”, “Pais” e “Piratas”.

Um dia mais mãe, outro dia mais médica!
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O pós-parto e os “Baby Blues”

 

O termo baby blues tem ganho terreno na preparação para a parentalidade. Mas esta “inglesice” é confusa, para quem não percebe nada de inglês… Então se traduzirmos à letra é “Olhos azuis”. Fim da conversa. E ficámos sem perceber absolutamente nada disto. Há… Os olhos azuis…

Nada disso! Em inglês, o termo “blue” (azul) é sinónimo de tristeza. “Feeling blue” é sentir tristeza. “Baby blues” traduz a tristeza/ melancolia após o parto. E entrámos por dentro de um tema igualmente confuso (assim como o nome).

Anda a mulher grávida 9 meses a “esfregar a barriga” e a dizer “ansiosa por te conhecer”. Chega ao final desse tempo e quando conhece a cria está triste?!!! Como é? Bicho este estranho: a mulher! Pensem e digam o que quiserem, mas eu tenho explicações. Não vale abanar a cabeça e dizer “Vá-se lá entender as mulheres” e sublinhar “Bicho complicado”!

Vamos entender as causas que estão por detrás deste processo…

Os baby blues caracterizam-se por humor depressivo, crises repetidas de choro e ansiedade. Ocorrem em cerca de  40% a 60% das mulheres no pós parto, e tende a desaparecer espontaneamente dentro de 10 a 14 dias. Quais os fatores desencadeantes ou fatores potenciadores?

 

  • Alterações hormonais;
  • Privação do sono;
  • Defraude das expetativas em relação ao parto (parto normal, cesariana, duração da gravidez, etc.);
  • Defraude das expetativas em relação ao recém-nascido (peso, problema de saúde detetado à nascença…);
  • Dificuldades na amamentação.

 

A depressão pós-parto caracteriza-se pelos sintomas anteriores que se prolongam e se agravam no tempo, acrescidos de confusão, perturbações do sono e do apetite. Tem uma prevalência de 10% a 15%. Constitui uma patologia que pode originar perturbações emocionais e cognitivas quer na mãe quer na criança, se não for detetada e tratada precocemente.

Embora o assunto deva ser tratado com muita SERIEDADE, eis algumas dicas de como podem ultrapassar esta fase:

 

1. RIAM-SE DE VOCÊS!!!!

 

Não encarem as primeiras dificuldades que surgem como se o mundo fosse acabar amanhã! Encarem tudo como um processo de aprendizagem, de crescimento da mulher como MÃE e ESPOSA/ COMPANHEIRA. E sim, riam-se de vocês encarando tudo de forma relaxada e tranquila!

 

 

2. LEIAM sobre outras mães

 

Ajuda e muito. Todos somos diferentes, mas alguns sentimentos são tão comuns. Perceberão que o que estão a sentir não é assim tão inédito, “não é assim tão só vosso”. E a partir daí compreenderão melhor o que está a acontecer convosco.

 

3. Saiam de casa!

 

Não se enclausure em casa com a expetativa de que deve manter o bebé afastado dos gérmenes. Aliás, deve fazê-lo naturalmente pois irá ser positivo para ambos.

Pode saber mais sobre quando passear com o recém nascido aqui!

 

3.1. Ainda dentro do ponto “SAIAM DE CASA”, queria acrescentar “SAIAM DE CASA DE VEZ EM QUANDO SEM O BEBÉ”

 

Façam-no sem qualquer remorso. Não são piores mães por irem dar um arejo só para desfrutarem um pouco da liberdade da vida sem filhos e de terem tempo apenas para vocês! E se tiverem a amamentar em exclusivo, não há qualquer problema. Façam um stock de leite para quem ficar a cuidar do bebé (pai, avós, tios…. amigos).

E sim, os avós podem “Ser a salvação dos netos e dos pais dos nossos dias“. Entregá-los por breves períodos aos avós irá potenciar a relação entre ambos, irá enchê-los de alegria e sentir-se-ão ainda mais babados por poderem ser “pais duas vezes” ou “pais com açucar”.

 

4. Não criem falsas expetativas em relação ao vosso corpo no pós parto

 

Estão a ver todos os exemplos de recuperação pós parto RELÂMPAGO (pois não há outro nome) de inúmeras figuras públicas nacionais e internacionais. O six pack não retornará no 1º mês. atrevo-me até a dizer que pode até não retornar até ao 1º ano de vida do vosso filho.

Ponham os olhos na modelo sueca Sofia Lindfors e essa é sem dúvida a imagem que devem manter na cabeça: um pós parto “de carne e osso” (leia mais aqui)!

 

5. Metam de uma vez por todas na cabeça que não têm SUPER PODERES

As mulheres têm a capacidade de fazer inúmeras tarefas é certo e sabido. E quem as conhece sabe que “só elas é que sabem fazer melhor do que ninguém”. Só elas é que sabem pôr a roupa a lavar, fazer refeições, engomar a roupa… E os companheiros esses… Nunca chegarão aos seus calcanhares. Por mais que tentem não sabem que para dobrar umas cuecas, é preciso:

  • 1º dobrar as partes laterais das cuecas para o centro;
  • 2º Passar a parte de baixo sobre as laterais dobradas, ultrapassando a costura em cerca de 2 dedos;
  • 3º Colocar a parte que sobrou acima da costura dentro do elástico;
  • 4º PARABÉNS: tem uma cueca envelope!

Recém mamãs???? Quem se interessa com as cuecas dobradas na gaveta???

Por isso, esqueçam limpezas de “algodão não engana”, camisas com vincos perfeitos ou outras coisas mais que cheiram a perfeição! Aceitem toda a ajuda para tratar da roupa e da casa sem hesitação, sem se fazerem de difíceis. Decidam quem e quando ajuda antes do bebé nascer para não ser um motivo de stress no pós parto. Aceitem a forma como o marido/ companheiro/ pai do bebé faz as coisas. Se puserem demasiados defeitos em breve só o terão desmotivado a fazer coisa nenhuma. Sem treino nunca chegará aos vossos calcanhares de SUPER MAMÃ!

 

 

6. DESCANSEM

É um cliché da maternidade/ pós parto mas nunca é demais frisar que o descanso é fundamental para exercerem o vosso novo papel de mãe e mulheres. A licença de maternidade não são férias! é um período destinado a cuidar do bebé e de si, com muito descanso e “sonecas à mistura”, para repor todas as baterias! Mesmo que se julgue a mais resistente, não é um king Kong da maternidade e não é movida a pilhas Duracell. FAÇA O FAVOR DE DESCANSAR!!!!!!

 

Como e quando procurar ajuda?

 

Já sabem que nestes assuntos, puxo sempre a brasa à minha sardinha… Na minha opinião, o MÉDICO DE FAMÍLIA pode ajudá-la a esclarecer as suas dúvidas e inseguranças. É um profissional que estará em contato consigo e com o bebé em inúmeras visitas nos primeiros 2 anos de vida.

Mais cedo, este assunto pode ser abordado nas consultas do próprio bebé (1ª consulta de vida, 1º mês, 2º mês, 4º mês) ou mesmo na consulta de revisão do puerpério (habitualmente entre a 4º e 6ª semana após o parto) de forma a verificar se as alterações de humor que sente são adaptativas e auto-limitadas, quer em termos de duração, quer em termos de sintomatologia. Alternativamente, este assunto pode ser abordado numa consulta destinada à recém-mamã, não inserida nas alternativas prévias.

E não só!!!!

Alguns cursos de preparação para a parentalidade têm uma componente no pós parto destinada à “Recuperação pós parto” através da massagem ao recém-nascido e no apoio à amamentação. É também, obviamente um local onde pode manifestar o que sente e obter algum apoio. Pode haver articulação entre os profissionais alocados a este curso e a sua equipa de saúde familiar (médico e enfermeiro de família).

A minha experiência de baby blues?

Já perceberam que neste assunto, não vale a pena assobiar para o lado… Aconteceu comigo e com a maioria das mulheres no pós-parto (aliás, como já disse acima, pode ocorrer em 40% a 60% das mulheres).

Ainda me recordo de chorar baba e ranho na minha 1ª noite com o Pedro ao ler a dedicatória do pai e daqueles que me felicitavam pelo seu nascimento. É uma mistura de sentimentos estranha… “Sobrevivi à gravidez” e agora “sobreviverei?”, “estarei à altura desta tamanha responsabilidade?“.

Outras vezes chorei sem saber porque chorava… Ora parecia que andava a 100km à hora numa montanha russa de emoções, ora estava mais tranquila, segura de mim e do novo papel de mãe. A pouco e pouco os dias começam a tornar-se menos cinzentos, mais previsíveis e ganhamos outra vida. Já falamos sobre o bebé sem desatarmos a chorar. Já o deciframos melhor.

E os dias cinzentos vão ganhando cada vez mais cor. Pela minha própria experiência, não garanto que será sempre tudo perfeito e cor-de-rosa daí para a frente.

A maternidade não é cor-de-rosa. É sim, composta por muitas nuvens, nevoeiro, chuva, arco-íris e muito sol, numa imensidão de cores, que nem sabíamos que existiam.

Por esse lado, como foi a vossa experiência no pós-parto?

Aproveito para desejar um excelente 2019 🙂 um ano muito colorido para todos!

beijinho e obrigada por me lerem

 

 

Referências bibliográficas:

  • Programa Nacional para a Vigilância da Gravidez de Baixo Risco, Direção Geral de Saúde, 2015
  • National Institute for Health and Care Excellence. Postnatal Care. [Online]; 2014 [cited 2014 Novembro. Acessível em: https://www.nice.org.uk/guidance/cg37/resources/guidance–postnatal-care-pdf.
  • American Pregnancy Association. [Online]; 2016, acessível em http://americanpregnancy.org/first-year-of-life/baby-blues-or-postpartum-depression/.

Comentários

  • Viviana Ferreira
    4 Janeiro, 2019

    Olá Sónia! Obrigada pela partilha. Eu tambem estou na estatística…preparei-me tanto para o parto mas as primeiras semanas de vida do Miguel é que foram a valer!!! Tudo foi avassalador e com uma intensidade inesperada!! Achava que estava preparada mas na verdade não estava…acho que ninguém sabe muito bem como é até passar por lá. Tudo o que mais queria era este bebé e que ele nascesse bem e saudável e depois…não parava de chorar por tudo e por nada. Não me reconhecia. Queria tanto estar feliz mas não conseguia. A privação de sono e as dificuldades na amamentação foram os fatores que mais me abalaram. Depois os dias foram passando, o Miguel foi crescendo, fomo-nos conhecendo e adaptando e a vida regressou à normalidade que idealizava antes do Miguel nascer. Agora o meu menino é a minha maior alegria todos os dias e estou muito muito grata por ter esta benção na minha vida! Coragem para todas as recém-mamãs!

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