Sónia Moreira

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Como médica e mãe criei este espaço de partilha de informação e de experiências. Ora mais formal, com referências bibliográficas científicas fidedignas para manter os interessados sobre o tema o mais atualizados possível. Ora mais informal, mostrando o lado mais humano dos médicos e pondo a descoberto alguma da experiência que tenho adquirido nestas “areias movediças” que são a Maternidade.

Os protagonistas deste blog são o Pedro, o Pai e o Pirata, rafeiro que adotamos em Junho de 2015 sob o olhar atento desta Mãe/ Esposa/ Médica. Leiam, coloquem dúvidas e partilhem, prometo escrever sobre os mais variados temas que despertam naqueles que convivem com mais “Pedros”, “Pais” e “Piratas”.

UM DIA MAIS MÃE, OUTRO DIA MAIS MÉDICA!
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Como dar medicamentos orais a crianças? – dicas úteis

Não sei como tem sido por esse lado, mas nós, por cá, temos o Pedro muitas vezes doente, sobretudo desde que entrou na creche por volta dos 5 meses. É difícil vê-los doentes! Mesmo para quem é profissional de saúde é difícil. É algo que nos “assombra” a maternidade e que, infelizmente, todos passamos. Há crianças menos afetadas que outras, mas, por aqui, tem sido quase com regularidade MENSAL! Já tivemos muita “luta” na hora de oferecer medicamentos orais e, por isso, fomos aprimorando as estratégias para aumentar a sua adesão. Quando há “luta” vem a ansiedade na hora de tomar os medicamentos e por mais pequenos que sejam, as crianças percebem e “absorvem” essa ansiedade e esse medo e dão ainda mais “luta”. É um ciclo vicioso! E nós, pais/ avós/ cuidadores, vamos desenvolvendo um mestrado na hora de oferecer medicamentos.

Para nós médicos (sou sincera) não é nada que foquemos muito na hora que fazemos uma prescrição. Os próprios laboratórios que vendem as formulações infantis vão camuflando o sabor dos medicamentos com formulações mais açucaradas (que os médicos tendem a prescrever com menos frequência) e a adicionar sabores agradáveis como morango, banana, framboesa! Contudo, desde que fui mãe confesso que me preocupo cada vez mais com a forma como são oferecidos os medicamentos às crianças. Por isso, tomei a liberdade de compilar algumas dicas neste artigo. O tempo da consulta é, infelizmente, escasso e por vezes não há tanto tempo (tanto quanto desejaríamos) para explicar como o podem fazer com MENOS luta, MENOS ansiedade e MAIS mimo, MAIS diversão. Confiram as minhas principais dicas abaixo.

 

Pontos chave:

  • Verifique a data de validade do medicamento (mesmo que o tenha acabado de comprar);
  • Verifique as condições de armazenamento do medicamento (temperatura);
  • Armazene os medicamento nas condições aconselhadas e num lugar seguro (exemplo.: nas prateleiras mais altas do frigorífico);
  • Leia o rótulo do medicamento previamente ao seu uso (mas sem exageros!);
  • Lave as mãos previamente à administração do medicamento;
  • Se o medicamento for xarope/ líquido agite o frasco antes de obter o doseamento (salvo indicação contrária no rótulo);
  • Se o medicamento a oferecer é líquido (xarope), deve ser usado dispositivo  pediátrico para o seu doseamento, conforme recomendação médica: seringa, colher de medição ou copo doseador. Por vezes os próprios medicamentos são vendidos com seringa, colher ou copo doseador. Esteja familiarizado com as unidades de medida, verificando previamente se cada traço da seringa corresponde a 0,1 ou 0,2 ml. EVITE usar medidas subjetivas como colheres de sopa, chá, sobremesa!
  • Seja rigoroso na determinação da quantidade de xarope medido;
  • Se houver necessidade de misturar o medicamento com comida ou líquidos, pergunte previamente ao médico ou farmacêutico se é possível fazê-lo. Há alimentos que podem interferir com a absorção do medicamento. Por exemplo, no caso das formulações de ferro, sabia que NÃO DEVE misturar com leite, ou produtos derivados visto que diminuem a sua absorção? Os alimentos com vitamina C (frutas) podem aumentar a sua absorção.

Deixo-vos um exemplo:

Resumo Características Medicamento (RCM) Ferrum Hausmann – como tomar

 

No RCM do Ferrum Hausmann é referido como deve ser tomado, mas não é referido que deve ser evitado tomar com leite ou produtos derivados do leite. Assim, DEVE sempre perceber junto do médico ou farmacêutico acerca das condições da toma.

  • NUNCA ofereça xaropes a bebés/ crianças na posição deitada;
  • Fique junto do seu filho até que tenha engolido toda a dose de medicamento.

 

Como oferecer o medicamento?

Antes de tudo, tenha uma atitude POSITIVA. Já aconteceu comigo e decerto também com outros pais e cuidadores provarem um pouco do medicamento antes de oferecer e perceberem de antemão que de facto “aquilo” tem um sabor péssimo. E como conhecemos muito bem os nossos filhos/ netos/ sobrinhos já nos aproximamos deles com muito receio da reacção, já com aquele ar de que “vamos oferecer LIMÃO” às pobres criaturas.

DICA PRINCIPAL neste campo: mesmo que o medicamento tenha um sabor horrível, ofereça sem receio. Não demonstre hesitação nem insegurança. As crianças percebem todos esses sentimentos e podem simplesmente recusar o medicamento porque perceberam que “aquilo” não é nada bom.

Atitude positiva na hora de oferecer medicamentos às crianças

 

 

Dicas para crianças com idade inferior a 1 ano (< 1 ano)

 

  • Não dê medicamentos “projetados” para a garganta do seu filho/ neto visto que pode existir maior risco de engasgamento ou vómitos;
  • Ofereça pequenas quantidades de medicamento de cada vez e não de uma só vez, visto que existe maior risco de engasgamento;
  • Ofereça mais medicamento após se certificar que a criança engoliu a quantidade oferecida previamente.
  • Técnicas:
    • Verifique a que resulta melhor com o seu filho/ neto. Os pais são aqueles que conhecem melhor os filhos e certamente irão determinar a melhor forma de o fazer, sobretudo para aqueles que dão mais “luta” (como o meu Pedrinho). Aqui estão enumeradas algumas dicas, faça a que melhor se enquadra na sua situação;
    • A não ser que o médico desaconselhe, uma estratégia que resulta muito bem é oferecer o medicamento oral antes de alimentá-lo. Com fome, a adesão ao medicamento pode ser maior e aí terá mais certezas que o engolirá!
    • Sempre que possível, pode e deve “aproveitar” o reflexo de sucção. Por exemplo, pode oferecer o medicamento com seringa ou colher, esperando que o bebé “sugue” o medicamento;
    • Ofereça o medicamento ao bebé no seu colo, numa posição quase direita. Se houver muita luta, pode segurar num dos braços e colocar o outro em volta da cintura. Aproveite esta posição para o acariciar nas bochechas. Ao abrir a boca, coloque um pouco de medicamento de cada lado da língua e vá repetindo o processo, até engolir todo o medicamento;
    • Evite oferecer medicamentos misturados com alimentos que o bebé precisa, pois pode começar a recusá-los pelo novo sabor. Se após aconselhamento médico ou farmacêutico decidir misturar os medicamentos com alimentos, faço-o com pequenas quantidades (pode ser 1 a 2 colheres) de maça ou pêra ou outro. Já vi acontecer misturar certos medicamentos com um prato de sopa e depois a criança recusar completamente essa refeição. Por isso, faça-o com pequenas quantidades do que lhe for mais conveniente.

 

Exemplo de posicionamento do bebé para oferecer medicamentos orais. Fonte: Nationwide Children’s Hospital

 

Dicas para crianças com idade superior a 1 ano (> 1 ano)

 

Eis algumas dicas para crianças maiores, ressalve-se novamente que os pais/ avós são aqueles que conhecem melhor os filhos/ netos, por isso, umas dicas podem funcionar melhor para uns e não para outros. Vá experimentando e reproduzindo o que tiver mais sucesso.

  • Administrar os medicamentos com a criança numa posição ereta/ sentada;
  • Dar o medicamento diretamente na boca ou, alternativamente, misturar com uma pequena quantidade (1 a 2 colheres de chá) de sumo natural ou água açucarada. Pode oferecer à colher ou simplesmente deixâ-lo beber. Note-se que deve ser uma pequena quantidade, para garantir que todo o medicamento é tomado;
  • Evitar misturar os medicamentos com alimentos importantes e “difíceis” na alimentação como sopa ou vegetais pois pode despoletar ou potenciar a sua recusa posterior;
  • Se optar por misturar o medicamento com algum alimento (conforme indicação médica ou farmacêutica) pode escolher alimentos com sabor forte/ doce ou até frios, pois ajudam a “camuflar” o sabor amargo dos medicamentos;
  • EXPLICAR SEMPRE O QUE VAI FAZER! Pode parecer uma perda de tempo, pois quando são muito pequenos podem ainda não falar quase nada ou mesmo emitir sons imperceptíveis, mas compensa SEMPRE explicar com palavras simples o que vão fazer! Se tentarmos esconder, eventualmente descobrirão e sentir-se-ão enganados!
  • Sempre que possível (apenas em crianças maiores) deixe a criança ESCOLHER como quer tomar o medicamento, ou até qual o medicamento que quer tomar primeiro. A criança sentir-se-á mais envolvida e seu tratamento e aumentará a sua adesão;
  • ELOGIAR  sempre que a criança tome o medicamento sem causar luta ou oferecer um miminho à vossa escolha;
  • IGNORAR/ DESVALORIZAR o comportamento da criança sempre que não colaborar na toma de medicamentos;
  • EVITAR oferecer medicamentos após ter um acto de disciplina ou reprimenda pois a tomada do medicamento pode ser interpretada como “castigo”;
  • EVITAR oferecer medicamentos com base na ameaça;
  • Chamar o medicamento pelo nome “remédio” ou “medicamento”. Não defraude as expectativas da criança chamando-lhe, por exemplo, “docinho”;
  • “ROLE PLAYING” pode ser útil em crianças maiores, solicitando à criança que finja que oferece o medicamento aos pais/ avós/ bonecos;
  • Nas crianças mais “difíceis” usar distrações como músicas, bonecos e eventualmente tecnologias (Leia mais sobre “Como usar tecnologias em crianças” aqui);
  •  OFERECER água posterior à toma do medicamento, pois ajuda na sua deglutição.

 

Há outro aspeto muito importante na hora de dar medicamentos: QUEM oferece o medicamento. Não é tão raro algumas crianças darem MUITA luta na hora de dar medicamentos em casa com os pais. E depois ficámos completamente incrédulos quando sabemos que foram autênticos “anjinhos” com os avós, educadoras, amas… Aconteceu comigo, admito! Procurem compreender o que há de diferente na vossa abordagem e na abordagem dos “heróis” que conseguiram semelhante façanha. Provavelmente, a resposta a este ENIGMA está mesmo num dos primeiros itens deste artigo – como oferecer o medicamento. Nós, pais, temos que agir de forma POSITIVA. Não podemos manifestar qualquer receio na hora H, eles são esponjas que absorvem completamente o nosso estado de espírito!

Se pretender saber mais sobre os medicamentos a administrar em caso de febre, leia mais neste artigo “Como lidar com a febre e com a “fobia” da febre” aqui.

Partilhe connosco as dicas que resultaram para si, pois podem ser úteis para outros cuidadores!

Obrigada por me lerem e seguirem! Partilhem este artigo e subscrevam a newsletter sem qualquer custo!

Beijinho

 

Referências bibliográficas:

  • Resumo Características Medicamento (RCM) Ferrum Hausmann
  • Nationwide Children’s Hospital, Helping Hand

 

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