Sónia Moreira

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Como médica e mãe criei este espaço de partilha de informação e de experiências. Ora mais formal, com referências bibliográficas científicas fidedignas para manter os interessados sobre o tema o mais atualizados possível. Ora mais informal, mostrando o lado mais humano dos médicos e pondo a descoberto alguma da experiência que tenho adquirido nestas “areias movediças” que são a Maternidade.

Os protagonistas deste blog são o Pedro, o Pai e o Pirata, rafeiro que adotamos em Junho de 2015 sob o olhar atento desta Mãe/ Esposa/ Médica. Leiam, coloquem dúvidas e partilhem, prometo escrever sobre os mais variados temas que despertam naqueles que convivem com mais “Pedros”, “Pais” e “Piratas”.

UM DIA MAIS MÃE, OUTRO DIA MAIS MÉDICA!
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Como usar tecnologias em crianças?

Sobre o uso de tecnologias em crianças como televisões, telemóveis, tablets, computadores e outros gadjets há muito que dizer. É um assunto sensível na nossa sociedade. Quase todas as pessoas que conheço têm telemóvel (algumas mais do que um), televisões (sim, no plural: na cozinha, sala, quarto), computadores (um por cada elemento da casa) e outros demais aparelhos. Não vivemos sem eles, é uma verdade. Se por algum  motivo nos esquecemos do telemóvel em casa ou ficamos sem bateria, sentimos-nos “desligados” do mundo, despidos, desorientados e sei bem lá mais o quê! Somos DEPENDENTES das tecnologias, essa é que é essa! Tive o meu primeiro telemóvel (Nokia 3310) com 16 anos. Conheço miúdos com 6 anos que já têm o dito cujo e manipulam-no melhor do que eu nessa altura! E telemóveis bem mais complicados que o meu nokia 3310 (lembram-se deste telemóvel?).

Nokia 3310, o meu primeiro telemóvel.

 

Por mais que tentemos adiar… Mais tarde ou mais cedo os nossos filhos vão contatar com as tecnologias. E se estiver grávida ou (ainda) não tiver filhos pode bater com a mão no peito e jurar a pés juntos que o seu…. “Nunca será como aquele miúdo que viu no restaurante, colado ao ecrã do telemóvel”, ou como o outro que comeu a sopinha toda a ver as músicas do Panda! Raios! Não cuspam para o ar! Este é um assunto sensível. E que atire a primeira pedra quem nunca o fez. O acesso às tecnologias pelas crianças é demasiado fácil,  estão em toda a parte, a começar pelas nossas casas… Cabe a nós, pais, famílias, cuidadores, profissionais de saúde orientar as crianças no seu uso da forma mais consciente que soubermos.

 

Fonte: https://raycee12.blogspot.com/2014/07/modern-technology-in-cartoon.html

 

Já estava para escrever sobre este tema há muito… Mas o gatilho para escrever este artigo foi mesmo o que me aconteceu na semana passada. O Pedrinho, que em segundos passou a chamar-se PEDRO (naquele tom que as mães usam quando estão enfurecidas, qual diminutivos, qual quê!) ATIROU-ME O TELEMÓVEL PARA A SANITA! Estava eu a maquilhar-me na casa de banho e ouço um “ohhhhhh” e quando verifico o que motivou o seu lamento vejo o dito cujo mergulhado na água. Funcionou durante 2 horas e já deu o berro. Ainda me questiono se não terá sido um ato propositado do pequeno para dizer “Mãe, presta atenção a mim” ou (alternativamente), “Mãe, és linda ao natural, não precisas de te maquilhar”.

 

Este não foi de todo o primeiro sinal do quão (os sacanas) se apercebem da importância que aquele utensílio (telemóvel) é para nós. De facto, sem darmos por ela, por vezes, é mesmo UM PROLONGAMENTO da nossa mão. Andamos para todo o lado com os telemóveis. Andamos para todo o lado com os miúdos. Por vezes, estamos ali, no mesmo espaço que eles a brincar, ora deitando um olho ao que estão a fazer, ora deitando um olho ao email, ora deitando um olho ao facebook, às mensagens, ao whatsapp, messenger… E quando simplesmente tínhamos que ser, durante cerca de uma hora, pais a 100%, temos as nossas atenções voltadas para 6 atividades, divididas em pé de igualdade pela mais importante: o nosso filho. Não foi à toa que perto de um ano de idade o Pedro nos imitava com o telemóvel entoando um “Tou”. Passou por uma fase que tudo servia para imitar o ato de atender chamadas, ora um sapato, um lego, um comando… Tudo servia. Entretanto, já lhe passou. Mas dá que pensar por estes lados. Dá para refletir o quão estamos verdadeiramente com eles, sem as distrações das tecnologias.

 

Fonte: https://www.antarcticajournal.com/

 

Por isso, este é um artigo dirigido a pais e cuidadores. É uma reflexão sobre como podemos contornar um problema dos nossos dias. É uma reflexão desta médica e mãe com conselhos baseados nas recomendações da Sociedade Americana de Pediatria sobre “Media and Young Minds” de 2016 dirigido a pais e profissionais de saúde.

 

O que nos dizem as recomendações sobre o uso de tecnologias em crianças?

 

Para crianças com idade inferior a 2 anos de idade, os benefícios do uso de tecnologias é limitado, sendo imprescindível a interação de um adulto com a criança durante o seu uso/ manipulação. Existem inúmeras evidências que demonstram os danos causados pelo seu uso excessivo, tais como:

  • Maior risco de desenvolvimento de obesidade;
  • Interferência no sono. Diminuição do nº de horas de sono por noite explicado, em parte, pela diminuição da produção da hormona indutora do sono (melatonina) potenciada pela luz emitida pelos ecrãs;
  • Desenvolvimento infantil. Embora a maioria da população possa achar que a exposição à tecnologia ajude no desenvolvimento das crianças, não é bem assim. A exposição prolongada e precoce às tecnologias pode levar a atrasos cognitivos, de linguagem, sociais e emocionais. Porquê? Essa exposição pode significar menos interação da crianças com os pais, que é fundamental no seu desenvolvimento em diversos níveis. O conteúdo visualizado e a monitorização dos pais com interação mútua é fundamental para evitar os seus efeitos negativos;
  • Menos interação entre pais e filhos. O uso da televisão pelos pais em segundo plano reduz francamente as interações/ brincadeiras verbais e não verbais entre ambos e até pode ser fonte de conflitos. Portanto, é fundamental que os pais/ família sejam exemplo e limitem também o uso de tecnologias por eles próprios.

Conselhos para os pais:

 

– Evite o uso de dispositivos digitais em crianças com idade inferior a 18-24 meses;

– Se pretende introduzir dispositivos digitais a crianças a partir dos 18-24 meses , deve escolher programação de alta qualidade e usá-la conjuntamente com o seu filho. Não permita que os use/ manipule sozinho;

– Não se sinta pressionado a introduzir dispositivos digitais com receio que o seu filho não se consiga adaptar às novas tecnologias. As tecnologias são facilmente intuitivas e, quando chegar o momento, irão conseguir manuseá-las sem qualquer dificuldade;

– Em crianças com idade entre os 2 e 5 anos limite o uso de tecnologias/ televisão a 1 hora/dia, selecionando programação de alta qualidade. Faço-o de forma presente de modo a ajudar a compreender o que estão a assistir e explicar-lhes a sua aplicabilidade no quotidiano;

Rua Sésamo, exemplo de programação de alta qualidade.

– Evite assistir programas muito rápidos, aplicações com muitas distrações ou conteúdo violento;

– Deve desligar ecrãs/ televisões/ dispositivos  enquanto não estão a ser usados. Não deixe a televisão ligada se não está a prestar atenção a nada do que está a ser exibido;

– Evite usar dispositivos  como única forma de acalmar os seus filhos. Embora possam existir períodos intermitentes, que podem ser úteis enquanto estratégia para os acalmar (realização de procedimentos, viagens de avião), o seu uso excessivo pode levar a incapacidade das crianças controlarem as suas emoções e lidarem com as suas frustrações (auto-regulação);

– Supervisione o conteúdo visualizado;

Não POLUA os quartos, refeições e brincadeiras entre pais e filhos com ecrãs, telemóveis ou tablets. Aproveite o tempo que tem para estar com os filhos em pleno, 100% dedicado a eles e não com o ruído da tecnologia;

-Não veja televisão, jogos, telemóveis, tablets pelo menos 1 hora antes de deitar, de outra forma, esse hábito pode interferir com a quantidade e qualidade do sono.

 

Toddler Computing Cartoon de Isabella Bannerman

Conselhos para profissionais de saúde

(enfermeiros, médicos de família, pediatras, médico assistente):

– Aborde este tema cedo, questionando as famílias de bebés e crianças sobre o uso de tecnologias, seus hábitos e locais de uso;

-Dê a conhecer aos pais como se processa o desenvolvimento do cérebro das crianças nos primeiros anos de vida, explicando a importância dos jogos, brincadeiras entre pais e filhos no desenvolvimento de habilidades linguísticas, cognitivas, sociais e emocionais;

-Desaconselhe o uso de tecnologias (televisão, telemóveis, tablets) antes dos 18 meses de idade;

-Para famílias/ pais de crianças entre os 18-24 meses que pretendam usar tecnologias, aconselhem o uso de aplicações/ programas de alta qualidade, estimulando o seu uso junto das próprias crianças. Evitar o uso de tecnologias sozinhas;

-Oriente as famílias/ pais para encontrar produtos de qualidade (Common Sense Media, PBS Kids, Sesame Workshop);

-Em crianças com idade superior a 2 anos de idade, limite o uso das tecnologias a 1 hora/ dia ou menos. Deve ser selecionada programação de alta qualidade, preferencialmente sob supervisão e conjuntamente com os pais, de forma a promover uma aprendizagem mais dirigida, mais aprimorada, com maior interação;

– Não recomende uso de tecnologias (televisão, telemóveis ou tablets) durante as refeições ou 1 hora antes de dormir;

-Discuta com os pais estratégias de estabelecimento de limites, atividades alternativas e formas de acalmar as crianças, sem recurso a tecnologias.

 

Em suma, afinal de contas, não queremos crianças assim…

 

Por aí qual é a opinião em relação às tecnologias? Acharam estas recomendações úteis?

Obrigado por me lerem e seguirem.

Subscrevam o blog sem qualquer custo!

 

Referências bibliográficas:

-AAP COUNCIL ON COMMUNICATIONS AND MEDIA. Media and Young Minds. Pediatrics. 2016;138(5):e20162591

 

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Comentários

  • Odete madureira
    14 Setembro, 2018

    O Andre tem 4 meses e meio e quando estou com o telemovel ele começa a ficar agitado quer o telemovel e se colocar o telemovel na mao ja pega e fica com uma atençao entao se tiver a passar um video, quando tamos com ele evitamos ao maximo usar o telemovel embora ele seja pequeno se nos vir sempre ao telemovel para ele quando for maior vai ser normal querer e andar sempre com um telemovel.

    Responder
  • Viviana Ferreira
    21 Setembro, 2018

    Olá Sónia! Concordo em pleno com o que escreveu neste artigo. Tenho um filhote de 5 meses e tento ao máximo evitar o uso de tecnologias com ele. Mas é difícil!! A exceção que abro é quando ele “fala” ao telemóvel por vídeo chamada. Acho que dessa forma existe o mínimo de interação humana e por isso tem alguma vantagem 😉
    Gosto muito de ler os seus artigos. Obrigada pela sua disponibilidade em partilhar 😊
    Já agora aproveito para fazer uma sugestão de artigo sobre a introdução de alimentos sólidos especialmente em bebés obstipados. Beijinhos

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