Sónia Moreira

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Como médica e mãe criei este espaço de partilha de informação e de experiências. Ora mais formal, com referências bibliográficas científicas fidedignas para manter os interessados sobre o tema o mais atualizados possível. Ora mais informal, mostrando o lado mais humano dos médicos e pondo a descoberto alguma da experiência que tenho adquirido nestas “areias movediças” que são a Maternidade.

Os protagonistas deste blog são o Pedro, o Pai e o Pirata, rafeiro que adotamos em Junho de 2015 sob o olhar atento desta Mãe/ Esposa/ Médica. Leiam, coloquem dúvidas e partilhem, prometo escrever sobre os mais variados temas que despertam naqueles que convivem com mais “Pedros”, “Pais” e “Piratas”.

UM DIA MAIS MÃE, OUTRO DIA MAIS MÉDICA!
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Dedicado a todas as Mães Zombies!

 

 

Lidar com a privação do sono é o meu tendão de aquiles de mãe! Adoro dormir e antes de ser mãe se havia coisa que eu mais adorava fazer ao domingo era dormir até ao meio dia. Até ficar com dores de cabeça de tanto dormir. Já dizia a minha mãe e a minha ama que eu era daquelas crianças dorminhocas, daquelas que dormem sestas de 3 horas e mais umas 11 horas durante a noite. Que afortunada foi a minha mãe! Mantive o mesmo padrão praticamente em todas as fases da minha vida. Pouca coisa me tirou o sono. Dormia em qualquer lado, nunca fui esquisita. No carro, nas camionetas, nos comboios… Aliás, quando era estudante e fazia viagens Covilhã-Porto cheguei a acordar em Braga. Em viagens de avião as hospedeiras já tiveram que me acordar na aterragem para tirarem-me os phones dos ouvidos. Nas horas de almoço já cheguei a vir a casa para dormir 10-15 min.

 

Agora olho para trás e consigo definir 2 eras. Se na bíblia havia o a.c. (Antes de Cristo) e  o d.p. (Depois de Cristo), na minha vida está claramente definido o a.p. (Antes do Pedro) e o d.p. (Depois do Pedro). Entre outras demais mudanças, o sono foi aquele que mais se ressentiu. Na gravidez houve uma preparação, sobretudo no 3º trimestre. Acordava a meio da noite sem motivo aparente, fazia um esforço muito grande para voltar a adormecer e quando finalmente o sono vinha… trás! O despertador tocava para ir trabalhar!

 

Vozes sábias de amigos e familiares já me diziam “É a preparação do corpo para quando chegar o bebé“. E eu pensava, idilicamente, que o meu amor de mãe iria superar tudo… O bebé podia acordar as vezes que quisesse que o meu amor superaria todas essas adversidades. Calma e serenamente o embalaria as vezes que fossem necessárias porque ser mãe é ser assim: MUITO PACIENTE. Se antes de ser mãe aguentamos uma directa a conversar com amigos, porque carga de água aquela “quebrazinha” a meio ou a 1/3 ou a 1/4 ou 1/5 da noite nos vai deitar abaixo? Sendo eu tão dorminhoca, voltaria a encetar no meu sono sem qualquer problema.

 

Quando o Pedrinho nasceu, não dormi nenhuma noite no hospital. “Passei pelos olhos”! E ele calmamente dormiu quase sempre… de noite e de dia enquanto lá esteve! Tive a alta do hospital, bêbeda de sono, e a querer com todas as minhas entranhas o conforto e sossego da minha cama. Foi aí que ele “verdadeiramente acordou para o mundo”. Chorou a noite toda. E se na era a.p. tinha lido o livro da Constança Ferreira “Os Bebés Também Querem Dormir“, naquela noite, com a privação de sono acumulada, já não sabia nada de nada sobre “como acalmar bebés”. Tentamos de tudo… Ora deita pele com pele, ora massaja, ora embala, ora amamenta, ora… sei lá bem o que fizemos!

Finalmente, adormeceu pela manhã, eram umas 8h, após lhe darmos o 1º banho em casa. Eu já SOMAVA 3 noites sem dormir!

Foi uma COÇA muito grande. Há quem chame atropelamento… eu chamo coça/ tareia física e psicológica. Para quem gosta de dormir é uma verdadeira TORTURA.

Daí para a frente ansiava o fim dos ditos 3 meses de cólicas, dos picos de crescimento e desenvolvimento, da erupção dentária… e sabe-se mais o quê.

Foram meses de muitos altos e baixos.

Quando terminou a licença de maternidade o Pedro já dormia muito bem. Mas mal o “gabava”, trás… lá vinha uma noite em que fazia “questão” de mostrar aos papás que lá estava. Esta imprevisibilidade dava cabo de mim. Uma mãe faz o melhor que pode pelo nosso filho, mas há sempre dúvidas… Chega-se ao ponto de questionar “O que estamos a fazer mal?“. Li muito sobre o sono infantil. Sou médica e inatamente busco explicação para tudo. Em muitas situações há mesmo uma causa entre várias: fome, frio, calor, fralda suja, refluxo, cólica… Para quem está de fora parece tudo muito fácil “Oh, tem fome! O teu leite deve ser fraco“, mas quando temos um bebé a aumentar bem de peso num percentil acima da média, não é isso que está em causa. Ou “Oh, deve ser algum dente para nascer” e passam-se meses sem nenhum dente do lado de fora! Ou “decerto não o aconchegas bem“! A melhor é “Habituaste-o ao colo, e ele agora não quer outra coisa“, como se durante a gravidez a mãe já não o embalasse! Ou “Oh tem vício de mama” e continua igual depois de começar leite adaptado! Há uma série de experts e letrados por esse mundo fora sobretudo nas opiniões acerca DO TEU BEBÉ!

 

TU, MAMÃ e PAPÁ, és quem o conhece melhor. Os EXPERTS são vocês!

E com o tempo vamos conhecendo cada vez mais e melhor o nosso bebé e começamos a saber de antemão porque acorda ou porque chora. Na maioria das situações não há razão identificável. Pode apenas querer miminho!

O ponto da situação actual é… Por cá, as noites más do Pedrinho são quando adoece, mas sei que há muitas mamãs por esse mundo fora que ainda sofrem muito com a privação de sono. São zombies… Que quando o bebé desperta a meio da noite ligam o piloto automático e de manhã já não sabem quantas vezes se levantaram. Que quando acordam, parece que estão ainda mais cansadas do que quando se deitaram. Que têm brancas durante o dia. Que querem dizer uma frase e lhes faltam palavras. Que vão para um lado e quando dão conta já nem sabem para onde iam ou o que estavam a fazer… Que ficam em pânico quando sabem que se aproxima a noite. É um curto circuito de tal ordem que dentro de pouco tempo, são poucas aquelas que resistem sem começar um antidepressivo.

Tenho algumas na minha consulta.

A boa notícia: tudo melhora com o crescimento. Uma noite vão acordar à hora habitual à espera da sua resmunguice e ele/ela estará sossegado/a na caminha. Irão pôr-lhe a mão à frente da boca ou do nariz a ver se respira. Irão ajeitar-lhe o lençol ou cobertor… Aquelas com o sono um pouco mais pesado, acordarão em sobressalto pela manhã com receio de não o/a terem ouvido a chorar e irão, mais uma vez, confirmar se respira. Na era d.p. nunca mais dormi como antes. NUNCA! Sinto que estou a dormir mas sempre em constante estado de alerta, com receio que vá precisar de mim a qualquer momento. Quando falo com outras mães reconheço este sentimento em todas. É normal!

 

Há excelentes textos sobre esta tortura/ coça/ tareia física e psicológica. O último que li e que partilhei no facebook é um texto de Eduardo Sá que se intitula “A tortura do sono“. Quem não leu, pode aceder ao texto por aqui.

Em breve escreverei sobre o sono infantil (já escrito entretanto, “Como melhorar o sono do bebé: dicas de uma médica e mãe”, pode aceder através deste link). Deixo a recomendação de leitura deste excelente livro da Filipa Sommerfeldt Fernandes “10 dias para ensinar o seu filho a dormir“, cujas dicas me ajudaram bastante.

 

E por aí como têm sido as noites? Partilhem as vossas experiências e depressa formaremos uma comunidade de mamãs zombies!

 

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Referências bibliográficas

  1. http://maeecomodeusnaodorme.blogspot.pt/2016/06/desabafo-noites-de-terror.html, acesso a 21 de Maio de 2018
  2. https://www.eduardosa.com/blog/sr-beb%C3%A9/a-tortura-do-sono/, acesso a 21 de Maio de 2018

Comentários

  • Ode
    22 Maio, 2018

    Tal e qual

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  • Ana Cruz
    26 Maio, 2018

    Revejo-me nas suas palavras, às vezes engulo uns sapos e venho chorar com ela no colo, fechada no “meu mundo” que já está saturada de palpites, e experts, muitas delas na nossa família e no mesmo (teto) ,o meu namorado todos os dias me pergunta como estou e o que sinto, às vezes vê que não estou como lhe digo,e pede-me que desabafe com ele .. porque esta mãe zombie, sente-se muito feliz por ser mãe, mas por vezes saturada destas bocas do povo que tanto opinam..
    Ele diz-me muitas vezes que não quer que tenha nenhuma (depressão pós parto,e tem medo que isso aconteça) até eu o tenho..
    Enfim,
    Mas voltando às mães Zombies:
    Sou uma zombie feliz.
    E vai fazer dia 28,um mês,que está perfeição me tira o sono. ❤
    E não é que a minha filha foi herdar o vício da mãe? 😊
    É dorminhoca, e espreguiçar quando acorda? É às meias horas😄
    Eu cá não me importo, faço exatamente como o papá diz (aproveita para dormir enquanto ela dorme.)😁

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  • Filipa Gomes
    26 Maio, 2018

    Revi-me em muitas palavras do que escreveu.
    Felizmente a minha princesa dorme bem de noite mas por vezes fico ate muito tarde para lhe dar um biberão de leite.
    Pois porque a minha filha não gosta de leite e só o bebe a dormir.
    O meu problema é sempre a alimentação com ela.
    Quando me levanto, parece que não dormi nada.
    E depois anda tenho de ouvir que ela não gosta da tua fruta ou da tua sopa,….
    É complicado.
    Mas temos de fazer por não ouvir e tentar fazerco melhor para ser uma boa mãe.

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  • Mariana Marques
    31 Maio, 2018

    A privação do sono é desumana… revejo-me em todas as palavras que escreveu, porque sempre fui extremamente dorminhoca! Os primeiros 4 meses foram uma tortura para mim (para o meu companheiro também!), mas depois melhorou e até hoje a minha filha de 3 anos dorme bem! Mesmo assim, a tortura ainda me persegue, porque o meu sono tornou-se mais leve e com muitos despertares noturnos sem motivo aparente… Ser mãe é a melhor coisa do mundo, é conhecer o verdadeiro significado do amor incondicional e, acima de tudo, é sermos nós próprias e ouvirmos o nosso coração bem como a razão! Ser mãe é enfrentar um desafio (ou mais) diariamente, é sermos postas à prova constantemente e sabermos filtrar as partilhas de experiências para adaptamos à nossa realidade! Um bem haja a todas as mães!! 😉

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  • Cristina
    1 Junho, 2018

    Os meus filhos, tirando as horas das mamadas de 3h em 3h, sempre foram crianças de bom dormir, embora a do meio, por não usar chucha, tenha sido a mais complicada na hora de dormir. Tanto que ainda hoje, aos 6 anos, continua a vir para a minha cama a meio da noite.
    Por vezes chegamos a ser 4 na cama (o mais novo, 3 anos, também gosta muito)…
    Com o 3°, cheguei a “acordar” no sofá a dar-lhe de mamar durante a noite, sem me recordar sequer de o tirar da cama…
    Mas o meu Pedro, que é o primogénito, tira-me muitas vezes o sono com as problemáticas da pré adolescência…
    Isto tudo para dizer que a nossa privação de sono não terá dias melhores, e esses que virão, serão bem mais desassogados…
    Obrigada pelo texto…. Muito bem escrito 😉

    Responder
  • Elisete
    1 Junho, 2018

    Como me revejo nas suas palavras! Confesso que quando estava grávida nem pensei no sono da minha bebe! Pensei em muita coisa, sonhei muita coisa e depois, de repente no meio de tanta alegria e de um
    Amor tão grande que eu não conseguia descrever nem quantificar, o mundo parecia estar a desabar! E eu que deveria estar em pleno para tomar conta da minha bebé cheguei a sentir necessidade de me afastar dela! Como era possível tal sentimento?! Eu sabia que poderia ter noites mal dormidas… mas o cansaço foi extremo!!
    Li muito, procurei ajuda de terapeutas de sono e iniciei uma luta, uma luta de uma mae que só queria ajudar a filha a dormir!! Agora com 8meses posso dizer:
    Conseguimos ! No entanto a ida para o infantário trouxe Entupimento nasal e uma gastroenterite, que têm perturbado bastante o sono…e o cansaço voltou.. mas desta vez sinto que sou uma mãe mais forte porque consegui, porque hei- de voltar a conseguir que ela volte a dormir bem, claro que … sempre com a ajuda do papá!
    Beijinho grande para todas as mamãs e papás coragem!

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  • Ana Leite
    7 Junho, 2018

    Olá,
    Adorei o texto. Sou mãe de 2a viagem e na gravidez não pensava mt no dps…tenho o mais velho com 5anos com a sua rotina, história e adormecer sozinho…e ele é mesmo de adormecer rápido! A mais nova agora com 3meses tem sido bastante diferente em mts aspectos, para os quais eu não estava preparada, ou pelo menos é o que eu sinto…olhando para trás percebo que eu e o marido demos(e damos) conta do recado, e que afinal de contas tb teve as suas dificuldades, simplesmente acabamos por esquecer o menos bom( ainda bem) 🙂 e tenho a certeza que estas incertezas que sinto são normais, mesmo já tendo a “escola feita” com o mais velho, sinto mts vezes que não consigo lidar com isto, sobretudo esta dependência (normal claro) que um bebé exige! No final de contas ser mãe é tão natural e ao mesmo tempo uma aprendizagem diária…e os filhos, cada um tão diferente e único! 😘

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  • Ângela Melo
    31 Julho, 2018

    MUITO OBRIGADA. apesar de não ter dúvidas algumas de que não estaria sozinha, apesar de amar a minha filha e de não sentir SEQUER qualquer ressabiamento por ela ainda não dormir a noite completa, apesar de em alguns momentos ficar bêbeda de sono a olhar para o quão bela ela é depois de mamar às 1, 3, 4.30 e 6 da manhã…. Em vez de dormir de seguida! Sim, preciso de uma comunidade de mamãs zombies. Já tenho algumas do meu grupo de preparação para o parto…. Vou partilhar e seremos mais 🙂 acima de tudo! Amo ser mãe 🙂 e um dia mãe e filha vao dormir horas e horas seguidas…. Quiçá até ao meio do dia!

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