Sónia Moreira

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Como médica e mãe criei este espaço de partilha de informação e de experiências. Ora mais formal, com referências bibliográficas científicas fidedignas para manter os interessados sobre o tema o mais atualizados possível. Ora mais informal, mostrando o lado mais humano dos médicos e pondo a descoberto alguma da experiência que tenho adquirido nestas “areias movediças” que são a Maternidade.

Os protagonistas deste blog são o Pedro, o Pai e o Pirata, rafeiro que adotamos em Junho de 2015 sob o olhar atento desta Mãe/ Esposa/ Médica. Leiam, coloquem dúvidas e partilhem, prometo escrever sobre os mais variados temas que despertam naqueles que convivem com mais “Pedros”, “Pais” e “Piratas”.

UM DIA MAIS MÃE, OUTRO DIA MAIS MÉDICA!
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A erupção dentária tem costas largas?

 

 

Este é sem dúvida um tema controverso, certo papás? Por gerar muitas dúvidas decidi investigar um pouco mais sobre os sinais e sintomas associados à erupção primária, a dos dentes de leite.

É comum nos primeiros meses de vida de qualquer bebé, face à presença de sinais/ sintomas inexplicados, apontarmos o dedo aos culpados do costume: os pobres dos dentes! Quem nunca??? Aliás, se bem se recordam no post do “Médica do meu filho? Não obrigada!” fiz exactamente isso e sou profissional de saúde! Por isso, não é assim tão descabido em algum momento da existência do nosso bebé apontarmos o dedo aos famosos vilões. Sei lá porquê. As mães são assim, gostam de ter explicação para tudo.

Pois bem, não querendo ser advogada do diabo irei esclarecer melhor se serão assim tão culpados.

Encontrei vários estudos de investigação a abordar o tema, mas chamou-me a atenção um artigo de revisão de 2016 publicado na revista Pediatrics muito bem desenhado que queria partilhar convosco. Este artigo incluiu estudos observacionais que tiveram como objectivo identificar sintomas locais ou sistémicos (“generalizados”) de erupção dentária em crianças dos 0 aos 36 meses, quer através de exame clínico, quer através de questionários aplicados aos pais ou profissionais de saúde. Os autores encontraram 1179 artigos sobre o tema, mas apenas 16 foram incluídos. Em termos gerais, verificou-se que 70,5% das crianças dos 0 aos 36 meses apresentaram algum sinal ou sintoma associado à erupção dentária. Destes os sintomas mais comuns foram: irritação gengival (86,81%), irritabilidade (68,19%) e salivação (55,72%). Mesmo assim, no que concerne à irritação gengival os autores alertaram para o facto do início da erupção dentária coincidir com uma fase de franca actividade exploratória por parte da criança. Por voltas dos 6 meses, quando surgem os primeiros dentes, as crianças levam todos os objectos e as próprias mãos à boca, o que pode causar risco aumentado de infecções. Por outro lado, a sucção nutritiva ou não nutritiva pode traumatizar as próprias gengivas da criança e potenciar essa mesma inflamação.

Outros sinais ou sintomas identificados nos diferentes estudos foram: perda de apetite, distúrbios do sono, rinorreia (“pingo do nariz”), diarreia, febre, rash no rosto (vermelhidão) e vómitos. Esta revisão também demonstrou que os sinais ou sintomas da erupção dentária primária diminuem com a idade, sendo que a maioria dos sintomas surge com a erupção dos incisivos. Os estudos demonstraram uma provável relação com erupção dentária de vários dentes em simultâneo com o aparecimento de febre, doença respiratória ou alimentar.

Em relação à febre? Os estudos incluídos parece que demonstraram existir uma subida de temperatura corporal durante a erupção dentária, mas SEM critérios de febre.

Aparte os estudos, queria também deixar aqui alguma opinião de “carne e osso”, made in Portugal que pudesse esclarecer melhor os cuidadores quanto a esta questão muito polémica. Encontrei no blog português E os Filhos dos Outros, da autoria dum colega também médico, mas cirurgião pediátrico um artigo sobre “Febre e erupção dentária” escrito pelo pediatra Hugo Rodrigues. Aconselho a lerem pois é a opinião real de alguém que admiro bastante e que que certamente já observou inúmeras crianças. A opinião, embora date de Agosto de 2013, é concordante com o artigo que citei acima “Na realidade, acho que a dúvida permanece sempre. Na minha opinião, acho que os dentes têm “costas largas”, mas que na verdade não causam nada do que lhes é atribuído. A única coisa que me parece aceitável é que causem algum desconforto às crianças, mas mais do que isso acho pouco provável.“.

Qual a minha percepção com o Pedrinho?

Já lá vão 11 meses. Surgiram os primeiros dentinhos incisivos centrais inferiores aos 9 meses. Nem demos por ela! Demos conta em casa de familiares quando lhe demos a beber água por um copo de vidro e ouvimos um tilintar. Agora parece que estão em erupção os incisivos centrais superiores. Esteve doente entretanto… Por isso terá ocorrido tudo em simultâneo. Tal como no artigo do Dr. Hugo Rodrigues citado acima explica, o importante é estar atento aos sinais de alarme da criança que possam motivar observação clínica. Esses estão bem discriminados num artigo que escrevi recentemente sobre “Como lidar com a febre e a “fobia” da febre?”.

Para finalizar, é esperar de ter a sorte de ter um filho/ neto/ sobrinho/ afilhado que corresponda aos 29,5% de casos em que os dentes não dão que fazer.

Quantos aos outros, estou a preparar um artigo com dicas para melhorar o desconforto associado à erupção dentária, a publicar em breve.

E desse lado qual é a vossa convicção em relação aos sinais e sintomas dos primeiros dentes?

 

 

Referências bibliográficas:

(1) Massignan C, Cardoso M, Porporatti AL, et al. Signs and Symptoms of Primary Tooth Eruption: A Meta-analysis. Pediatrics. 2016;137(3):e20153501

(2) Imagem retirada de https://www.gettyimages.pt/ a 28 de Abril de 2018

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