Sónia Moreira

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Como médica e mãe criei este espaço de partilha de informação e de experiências. Ora mais formal, com referências bibliográficas científicas fidedignas para manter os interessados sobre o tema o mais atualizados possível. Ora mais informal, mostrando o lado mais humano dos médicos e pondo a descoberto alguma da experiência que tenho adquirido nestas “areias movediças” que são a Maternidade.

Os protagonistas deste blog são o Pedro, o Pai e o Pirata, rafeiro que adotamos em Junho de 2015 sob o olhar atento desta Mãe/ Esposa/ Médica. Leiam, coloquem dúvidas e partilhem, prometo escrever sobre os mais variados temas que despertam naqueles que convivem com mais “Pedros”, “Pais” e “Piratas”.

Um dia mais mãe, outro dia mais médica!
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Uso de aranhas, voadores ou andarilhos – Sim ou Não?

Perigos do andarilho. Fonte: Associação para a Promoção de Segurança Infantil

 

Nos últimos tempos tenho participado em inúmeros grupos de mamãs e esta é uma questão que surge frequentemente entre elas e, como tal, decidi elaborar um artigo fundamentado na melhor evidência científica que respondesse a esta questão e as pudesse ajudar.

O que são os andarilhos (aranhas, voadores ou andadores)?

Os andarilhos são um equipamento de puericultura composto por uma base de rodas que suporta uma estrutura rígida com assento em tecido com aberturas nas pernas  e uma bandeja de plástico.  É destinado a crianças que ainda não andam e que estão a “aprender” a fazê-lo. O modelo permite que a criança apoie os pés no chão e se desloque através do seu próprio impulso. Alguns deles também estão equipados com brinquedos ou actividades na bandeja para a própria criança se entreter.

A Academia Americana de Pediatria publicou em 2001 um artigo onde dá-nos conta de 8800 acidentes com andarilhos no ano de 1999 em crianças com idade inferior a 15 meses. A maioria dos acidentes mais graves foi devida a quedas de escadas e traumatismos cranianos. A maioria dos pais que os usam têm a falsa percepção que mantêm a criança segura (porque está sentada) ou que a ajuda a andar mais cedo. Não existem estudos que comprovem esses benefícios (1).

Aliás, um estudo de 1999, que comparou crianças com idades compreendidas entre os 6 e 15 meses que usaram andarilhos, demonstrou que estas sentaram-se, gatinharam e andaram mais tarde do que aquelas que não usaram. A marcha dos usuários de andarilhos pode ser também discretamente anormal (2).

O panorama em Portugal não é muito diferente.  A UVP (Unidade de Vigilância Pediátrica) publicou as conclusões de um estudo piloto de 2005, com o apoio da APSI (Associação para a promoção da segurança infantil) referindo mesmo que:

Os andarilhos são, isoladamente, o artigo de puericultura que mais acidentes graves provoca, tendo em conta o curto período em que são utilizados. Em Portugal são estimados 650 casos por ano suficientemente graves para obrigar a criança a recorrer a um serviço de urgência hospitalar” (3).

 

Através dos andarilhos é possível que a criança se desloque a uma velocidade de um metro por segundo, possibilitando a sua movimentação de divisão em divisão, sujeita a inúmeros perigos que a maioria dos pais ainda não antecipou. Esses perigos passam pelos traumatismos em esquinas de móveis, acesso a objectos mais altos (que podem colocar a criança em perigo pela temperatura, pelo peso, pela constituição), tomadas eléctricas, desníveis do pavimento que podem fazer com que tombem. Na maioria das vezes os pais estão próximos, mas convenhamos… Sei bem as inúmeras tarefas que temos para fazer em casa e por vezes dá mesmo jeito ter a criança feliz e entretida, enquanto fazemos algo muito importante da lida doméstica. É nesses momentos que os acidentes têm maior risco de acontecer, com os pais/ cuidadores nas proximidades, mas envolvidos noutra tarefa qualquer. Na maioria das vezes os pais não conseguem socorrer a situação a tempo, pois tudo ocorre num “abrir e fechar de olhos”. E lá vem um traumatismo craniano, fracturas dos dentes, fracturas dos membros superiores, cortes na língua e lábios.

 

Pode parecer que os andarilhos ajudam a criança a andar mais cedo, mas o que VERDADEIRAMENTE AJUDA é incentivá-la a rolar, sentar e gatinhar. São etapas que promovem o desenvolvimento da musculatura imprescindível para o processo da marcha.

Posto isto, o próprio Boletim de Saúde Infantil e Juvenil desincentiva a não utilização dos andarilhos, reforçando que a mobilidade e velocidade excessivas das crianças enquanto utilizadoras de andarilhos tornam este produto MUITO PERIGOSO.

Informação contida no Boletim de Saúde Infantil e Juvenil destinada aos pais/ cuidadores entre a consulta dos 9 e 12 meses

 

Resumindo e concluindo: o andarilho, a meu ver, é uma forma “preguiçosa” e perigosa de (Des)estimular a criança a andar. Por isso, não compre, não peça emprestado!

O nosso Pedro não tem andarilhos e a boa notícia é que começou a andar há dias, pouco depois de ter completado 1 ano! Não fez nem faz falta nenhuma!

Qualquer dúvida disponham.

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Referências bibliográficas:

(1) Committee on Injury and Poison Prevention. Injuries Associated With Infant Walkers. Pediatrics 2001;108;790

(2) Siegel AC, Burton RV. Effects of baby walkers on motor and mental development in human infants. J Dev Behav Pediatr. 1999;20:355–361

(3) http://criancaefamilia.spp.pt/promocao-de-saude/os-andarilhos-s%C3%A3o-perigosos.aspx, acesso a 3 de junho de 2018

(4) Rocha E., Anselmo M., Pinho JP., Menezes H., Virella D. Lesões Associadas a Acidentes com Andarilhos – a memória dos pediatras. Unidade de Vigilância pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria e Associação para a Promoção da Segurança Infantil.

Comentários

  • Odete
    4 Junho, 2018

    Ora ai esta uma bela questao
    Eu tambem sou contra o uso dos “voadores” o Andre tambem nao vai usar, vai usar sim o parque

    Responder
  • Xica Maria
    7 Junho, 2018

    O meu filho mais velho usou enquanto a mais nova não usou,começou a andar muito cedo.

    http://ourpicturingdays.blogspot.com

    Responder

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