Sónia Moreira

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Como médica e mãe criei este espaço de partilha de informação e de experiências. Ora mais formal, com referências bibliográficas científicas fidedignas para manter os interessados sobre o tema o mais atualizados possível. Ora mais informal, mostrando o lado mais humano dos médicos e pondo a descoberto alguma da experiência que tenho adquirido nestas “areias movediças” que são a Maternidade.

Os protagonistas deste blog são o Pedro, o Pai e o Pirata, rafeiro que adotamos em Junho de 2015 sob o olhar atento desta Mãe/ Esposa/ Médica. Leiam, coloquem dúvidas e partilhem, prometo escrever sobre os mais variados temas que despertam naqueles que convivem com mais “Pedros”, “Pais” e “Piratas”.

UM DIA MAIS MÃE, OUTRO DIA MAIS MÉDICA!
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Prevenção de morte súbita no recém-nascido – o que deve saber!

 

Medo de morte súbita do Lactente/ bebé/ recém-nascido? É com base neste medo que as Mães acordam várias vezes durante a noite “só para ver se está a respirar”! Acho que esta é uma preocupação transversal a todos os pais ou cuidadores de bebés, sobretudo se desde tenra idade começam a dormir a tão ansiada “noite toda”. Não conheço nenhuma mãe que não tenha tido esta preocupação. E mesmo com estas dicas continuarão a ter!

Mas o que é isso da morte súbita do lactente?

Este é um termo genérico usado para descrever a morte repentina ou não esperada que ocorre em crianças, sem aparente causa conhecida (mesmo após investigação, como realização de autópsia). O que se sabe é que acontece uma paragem cardiorespiratória em bebés previamente saudáveis, cujo risco é maior nos primeiros 4-6 meses de vida.

As 15 regras de ouro para a prevenção:

 

1. Deitar o bebé de barriga para cima

 

Geralmente falo com os pais sobre esta regra na 1ª consulta do bebé no centro de saúde (talvez até devesse falar enquanto ainda estão grávidas!). A MAIORIA fica muito surpresa pois julgavam que a posição correcta era mesmo de lado. Aqueles que têm filhos mais velhos ficam até… indignados! Há uns anos atrás não era isto que se aconselhava, mas a medicina tem evoluído e não há que ter receio de os deitar de barriga para cima, certo?

A principal preocupação dos cuidadores quanto a esta posição é mesmo a maior probabilidade de poderem engolir o vómito e asfixiarem-se. A sociedade Americana de Pediatria assim como a Sociedade Pediátrica Norte Americana de Gastroenterologia e Nutrição recomenda MESMO que a posição de dormir seja de barriga para cima. Existem algumas excepções, muito raras, como em caso de malformações do foro respiratório ou até nalgumas situações de Refluxo Gastro-esofágico.

Posição da traqueia e esófago nas diferentes posições do bebé. De barriga para cima é mais difícil ocorrer aspiração do vómito. Fonte: Safe to Sleep

 

As recomendações de deitar o bebé de barriga para cima também abrangem os prematuros.

Até quando esta posição deve ser adoptada? A Sociedade Americana de Pediatria recomenda pelo menos até 1 ano de idade.

Quando a criança conseguir rolar sobre si (de barriga para baixo e vice-versa) é permitido que permaneça na posição que assumiu, não sendo necessário que os pais a coloquem novamente de barriga para cima.

 

2. Usar uma superfície firme para dormir

 

Os bebés devem ser colocados para dormir sobre uma superfície que seja firme, como um colchão coberto por um lençol com tamanho adequado, sem mais qualquer objecto livre no local. Se a superfície for mole, como no caso de colchões de espuma, existe o risco de indentação ou sufocação. Atenção às camas, aos berços ou colchões usados, pois podem já não cumprir estas recomendações.

Aliás, a Sociedade Americana de Pediatria alerta mesmo para o uso de berços usados e com peças posteriormente arranjadas (ou coladas). Algumas mortes ocorreram por peças previamente partidas e “supostamente” arranjadas. Atenção, a meu entender podem usar camas ou berços usados, mas tenham MUITA atenção ao seu estado de conservação!

Aqueles berços muito famosos que são acoplados à cama dos pais, como é o caso dos famosos “Next2Me” devem preencher critérios mínimos de segurança. A Consumer Product Safety Commission (CPSC) tem definidos critérios de segurança para grande parte dos berços, que podem ser consultados pelos pais antes de se aventurarem a fazer qualquer compra precipitada. O colchão deve encaixar perfeitamente no berço ou cama, sem qualquer lacuna entre o próprio berço e o colchão. Não devem ser usadas almofadas no ambiente onde a criança irá dormir.

Se o bebé adormecer num dispositivo qualquer sentado deve ser mobilizado para o seu berço ou superfície mais firme, da forma que for mais prática para os seus cuidadores. Esta é difícil, certo? Às vezes estão a  dormir tão bem que ficamos com receio de os mobilizar e acordar! Se optarem por deixá-los a dormir no dispositivo, manter a criança sob vigilância.

 

Fonte: Consumer Product Safety Commission (CPSC)

 

3. Aleitamento materno

O aleitamento materno está associado com menor risco de morte súbita do lactente. A Sociedade Americana de Pediatria, a par da Organização Mundial de Saúde recomenda aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses de idade.

 

4. Dormir no quarto dos pais, perto da sua cama, mas em superfície separada destes (idealmente durante o 1º ano de vida, mas se não for possível, pelo menos até aos 6 meses de idade)

 

Existe evidência que dormir no quarto dos pais, mas em superfícies separadas, (ou seja, camas diferentes) pode reduzir o risco de morte súbita em até 50%. Se o bebé dormir na mesma cama dos pais existe maior risco de sufocação e estrangulamento. Quando o bebé for trazido para a cama dos pais para amamentação ou para conforto deve ser colocado novamente no berço assim que possível, antes dos pais readormecerem.

Não deitar os bebés a dormir em sofás, são extremamente perigosos!

 

5. Manter os objectos moles/macios fora da área de sono do bebé para evitar risco de sufocação, estrangulação e aprisionamento

 

Os objectos soltos na cama podem obstruir as vias aéreas do recém nascido, podendo contribuir para maior risco de morte súbita. Os “sacos de dormir” podem ser preferíveis a cobertores ou outras coberturas para manter o bebé quentes, visto que podem migrar para a cabeça do bebé e contribuir para a sua asfixia.

Muitos contornos de berço ou produtos similares foram originalmente criados para reduzir o risco de “aprisionamento da cabeça do bebé” entre as grades do berço. Contudo, os berços aconselhados actualmente têm uma distância entre as grades mínima para evitar que isso aconteça. Por isso, se o berço cumprir com esses standards, não existe necessidade de colocar os contornos de berço.

 

6. Oferecer uma chupeta ao bebé

 

O uso de chupeta na hora de dormir tem um factor protector contra a morte súbita do lactente, embora o mecanismo não seja bem conhecido. Este efeito estende-se para além do período de uso da chupeta, mesmo após cair da boca do bebé. Não existe necessidade de reintroduzir a chupeta no caso do bebé adormecer.

Se o bebé recusa a chupeta não se deve forçar (o caso do Pedro). Os pais podem tentar oferecer-lhe novamente, quando for um pouco mais velho. Não se devem usar fios a prender a chupeta em torno do pescoço devido ao risco de sufocação. Não devem ser acoplados peluches ou outros objectos às chupetas.

Naqueles amamentados com leite materno deve-se adiar a introdução da chupeta até a amamentação estar completamente estabelecida com uma boa pega. Naqueles sem aleitamento materno podem usar de imediato a chupeta.

Não existe evidência que o chuchar o dedo tenha o mesmo efeito protector.

 

7. Evitar exposição ao fumo durante a gravidez e após o nascimento

 

A exposição ao fumo do tabaco antes e após o nascimento é um factor de risco muito importante na morte súbita do recém nascido. Significa isto que estamos a falar quer de exposição activa (nas fumadoras), quer na exposição passiva. Por isso, é importante que os conviventes da mãe e bebé tenham também em consideração este aspecto.

O risco é maior se o bebé partilha a cama com um adulto fumador, mesmo quando esse adulto não fuma na cama.

 

8. Evitar álcool e consumo de drogas ilícitas durante a gravidez e após o nascimento

 

As mães devem evitar o consumo de álcool e drogas ilícitas, quer na pré-concepção (antes de engravidarem) quer durante a gravidez. O consumo de álcool por parte dos pais, associado à partilha da cama com o bebé, aumenta francamente o risco de morte súbita do lactente.

 

9. Evitar o sobreaquecimento e cobrir a cabeça dos bebés

 

Apesar de vários estudos terem demonstrado que o sobreaquecimento é um factor de risco para morte súbita, não está ainda clara a recomendação da temperatura ideal do quarto do bebé.  Contudo, a Sociedade Portuguesa de Neonatologia recomenda  que a temperatura do quarto deve ser entre os 18º e 20º, e se tiver febre deve ser despido
(arrefecimento físico).

O que está recomendado é vestir a criança com uma peça a mais em relação ao nº de peças de vestuário que um adulto está a vestir naquele ambiente de forma a sentir-se o mais confortável possível. O cobertor não deve ultrapassar os ombros. Os cuidadores devem estar atentos aos sinais de sobreaquecimento: criança suada, quente, irritada.

Não há recomendações quanto ao uso de ventilador.

10. Vigilância pré-natal

 

A mulher grávida deve ser vigiada pelo seu médico assistente regularmente, de acordo com o preconizado pela Direcção Geral de Saúde.

 

11. A criança deve ser vacinada de acordo com as recomendações da Direcção Geral de Saúde

 

Investigações mais recentes sugerem que a vacinação recomendada no Plano Nacional de Vacinação parece demonstrar um efeito protector na prevenção de morte súbita do lactente.

 

12. Não usar aparelhos que prometem reduzir o risco de Morte Súbita no lactente

 

Atenção aos dispositivos que “apregoam” que reduzem o risco de Morte Súbita no Lactente, como por exemplo, cunhas ou posicionadores colocados na cama dos adultos para posicionar os bebés na cama dos pais.

Para consulta das características específicas destes produtos aconselho a consulta do site do CPSC (que é americano, mas que pode ser bastante útil) e também do site português da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI).

No caso da utilização de algum produto ocorrer um acidente, se tiver dúvidas sobre a sua segurança ou considerar que é perigoso, deve participá-lo. Contacte imediatamente a Direção Geral do Consumidor ou a ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica) ou preencha os formulários aí disponibilizados.

 

13. Não use monitores cardiorespiratórios como estratégia para diminuir o risco de Morte Súbita no Lactente

 

Estão disponíveis no mercado alguns monitores que sinalizam quando o bebê pára de respirar, contudo não há evidência que sejam eficazes. Como tal, NÃO GASTE dinheiro a comprar este tipo de dispositivos sem aconselhamento médico. Só em situações excepcionais é que é aconselhado o seu uso!

 

14. Estimular a posição de “barriga para baixo” com o bebé acordado

 

Não existem recomendações quanto à frequência ou tempo que se deve estimular a posição de “barriga para baixo”, mas é conveniente que os cuidadores o façam quando o bebé está acordado e sempre sob supervisão de um adulto. Esta posição minimiza o risco de plagiocefalia (“assimetria da cabeça”) e estimula o desenvolvimento da musculatura do pescoço e ombros.

 

15. Não há evidência que a técnica “swadding”/ envolta reduza o risco de Morte Súbita no Lactente

 

Em que consiste o “swadding”/ envolta? Muitos já podem ter ouvido falar e outros não. Resumidamente o “swadding” é uma técnica milenar usada em vários locais do mundo para acalmar e preparar o bebé para dormir. Pode ser bastante útil em alguns bebés, sobretudo naqueles que têm o reflexo de Moro bastante activo (aquele reflexo que os bebés fazem ao abrir os braços, parecendo que vão cair).

Técnica do swadding. Fonte: https://www.mamanatural.com/how-to-swaddle-a-baby/, acesso a 18 de maio de 2018

 

O bebé fica muito enroladinho, o que pode ter alguns benefícios na hora de deitar. No entanto, como tudo, esta técnica deve ser usada com MUITA PRECAUÇÃO sobretudo após a criança já conseguir rolar sobre si mesma (aproximadamente aos 3 meses). Se optar por usar esta técnica DEVE SEMPRE colocá-lo deitado de barriga para cima. Quando a criança manifestar tentativas em rolar sobre si, NÃO DEVE mais ser usado.

Antes da utilização desta técnica fale com o seu médico assistente, mediante avaliação individual.

 

Durante esta pesquisa encontrei um artigo do Público que achei super interessante “Mãe cria lençóis que reduzem o risco de asfixia em recém-nascidos“. Eu sei que que atrás, no conselho nº 12, está escrito “Não usar aparelhos que prometem reduzir o risco de Morte Súbita no lactente“… Quem diz aparelhos, diz outras invenções! Contudo, o que me despertou o interesse foi o facto desta mãe ser portuguesa. Vale a pena ler mais um pouco sobre esta pequena “invenção” e perceber se pode ajudar ou não a prevenir o risco de asfixia e, consequentemente, de morte súbita. O projecto foi desenvolvido na Universidade do Minho tendo um design único que impede que o bebé deslize para debaixo dos lençóis graças a um sistema de retenção e segurança que é ajustável consoante o crescimento da criança e amovível a qualquer momento. O modelo de lençóis “Safety Baby Bed” integra ainda um fecho adaptado “para a criança não se destapar durante a noite, mantendo a temperatura ideal”. Segundo o Público, encontra-se em fase final de patenteamento e conta já com um prémio. Portanto, é esperar que os peritos se pronunciem sobre isto e saber se será mesmo seguro!

Espero que este artigo tenha sido útil para todos os cuidadores e para aqueles que lidam com crianças todos os dias, incluindo auxiliares e educadoras de infância. Por isso, preparei um DOCUMENTO EM PDF com um resumo sob a forma de tabela e imagem com os principais conselhos para usar por TODOS com base nas recomendações da Sociedade Americana de Pediatria.

Alguma dúvida estejam à vontade para esclarecer através daqui, email ou redes sociais. Subscrevam a newsletter, é gratuito e têm acesso mais fácil a todas as novidades.

 

PDF PARA IMPRIMIR:

amaeeos3p_morte-subita

 

 

Referências bibliográficas:

  1. AAP TASK FORCE ON SUDDEN INFANT DEATH SYNDROME. SIDS and Other Sleep-Related Infant Deaths: Updated 2016 Recommendations for a Safe Infant Sleeping Environment. Pediatrics. 2016;138(5):e20162938

2. http://www.spneonatologia.pt/to-parents/useful-information/morte-subita-do-lactente/, acesso a 18 de Maio de 2018

3. https://www1.nichd.nih.gov/sts/news/downloadable/Pages/baby_anatomy_image.aspx acesso a 15 de maio de 2018

4. https://www.cpsc.gov/Safety-Education/Safety-Education-Centers/cribs, acesso a 15 de Maio de 2018

5. https://www.apsi.org.pt/guiaprodutoscriancas/products.php?page=products, acesso a 18 de Maio de 2018

6. http://criancaefamilia.spp.pt/gravidez-e-primeiro-ano-de-vida/prevencao-da-morte-subita.aspx, acesso a 18 de Maio de 2018

7. http://visao.sapo.pt/opiniao/bolsa-de-especialistas/2016-04-11-Pode-se-prevenir-o-Sindrome-da-Morte-Subita-, acesso a 15 de Maio de 2018

8. https://www.publico.pt/2018/01/10/ciencia/noticia/mae-de-dois-filhos-cria-lencois-que-reduzem-risco-de-asfixia-em-recemnascidos-1798838, acesso a 15 de Maio de 2018

 

 

Comentários

  • Alexandra Maia
    19 Maio, 2018

    Adorei, como sempre!! Muito útil. Aliás todos os assuntos que menciona no seu blogue são muito importantes e interessantes, com uma linguagem muito acessível. Que sorte que as mães têm , ficam esclarecidas da maior parte das dúvidas/medos.

    Responder
  • Joana Sampaio
    15 Junho, 2018

    Boa Tarde!!
    Excelente artigo, obrigada!
    Estou gravida de 26 semanas e adquiri recentemente o berço Next to me da Chicco .
    Fiquei na duvida relativamente a sua opinião sobre este berço; nao cumpre os requisitos minimos de segurança?
    Obrigada

    Responder

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