Sónia Moreira

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Como médica e mãe criei este espaço de partilha de informação e de experiências. Ora mais formal, com referências bibliográficas científicas fidedignas para manter os interessados sobre o tema o mais atualizados possível. Ora mais informal, mostrando o lado mais humano dos médicos e pondo a descoberto alguma da experiência que tenho adquirido nestas “areias movediças” que são a Maternidade.

Os protagonistas deste blog são o Pedro, o Pai e o Pirata, rafeiro que adotamos em Junho de 2015 sob o olhar atento desta Mãe/ Esposa/ Médica. Leiam, coloquem dúvidas e partilhem, prometo escrever sobre os mais variados temas que despertam naqueles que convivem com mais “Pedros”, “Pais” e “Piratas”.

UM DIA MAIS MÃE, OUTRO DIA MAIS MÉDICA!
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Como reduzir a dor nos bebés durante vacinação: Mamanalgesia e outras medidas!

 

 

De todas as consultas que faço diariamente, a saúde infantil é uma das que me dá mais gozo, especialmente desde que fui mãe. Não que antes não gostasse, não é isso! Para além de estar mais segura do que faço (porque tenho uma espécie de “cobaia” em casa) tenho mais capacidade de me colocar na posição dos pais. Reconheço muitas das dúvidas que já tiveram ou têm na minha própria experiência da maternidade. Sou melhor médica! Não me limito a observá-los atendendo aos percentis, escalas e mais escalas de avaliação e desenvolvimento e múltiplos cliques aqui e acolá no computador. Ofereço muito mais que isso aos pais e crianças. Partilho este pequeno desabafo e abro-vos o meu coração, da mesma forma que o faço no dia a dia, com pais e crianças cheios de dúvidas, inseguranças, incertezas perante os novos desafios da parentalidade. Fico ainda mais feliz fico por notar consulta a consulta que os pais estão cada vez melhores nesse novo papel. E eu estou ali sempre para eles a aplaudir cada nova conquista.

 

Adoro todas as consultas de saúde infantil. Para mim dá-me um gozo muito grande fazer as consultas do primeiro e segundo ano de vida! Mas se há “coisa” que dispensava era a administração de vacinas. E se até antes fazia o que tinha a fazer na consulta, chegado o momento da administração das vacinas…. Pensava… “Não estou aqui a fazer nada, vou fazer registos no computador“! Saía da sala de enfermagem para fazer registos exímios, com todo o pormenor e mais algum e no entretanto ouvia o choro dos pequenotes na minha sala imaculada. E eis que… Não sei bem quando. Mas desde há uns tempos para cá. Fico na sala de enfermagem. Não, não gosto de ver bebés a chorar com “picadas” nas pernas ou braços. Na verdade, odeio! E as enfermeiras com quem trabalho também! Já estive do outro lado com a experiência da maternidade. Já segurei o meu Pedro na hora de dar as injeções. E percebi que a ansiedade é tanta na administração das vacinas que muitas vezes os pais nem ouvem os ensinos que fazemos. E comecei a ficar por ali, nem sei bem se (na perspetiva deles) a ajudar ou atrapalhar. Tento conter-me nos ensinos na hora que a administração de vacinas está a acontecer e no pós (entre choros e gritos) porque NINGUÉM OUVE NADA. E estou por ali a ajudá-los a minimizar o desconforto dos pais e das crianças. Desculpem-me a modéstia, mas até acho que ajudo!

 

Em consonância com o que atrás expliquei, a Organização Mundial de Saúde (OMS) num artigo publicado em 2015, demonstra que a dor causada pelas vacinas injetáveis é uma preocupação por parte dos cuidadores e também dos profissionais de saúde. Aliás, 24-40% dos pais têm essa preocupação e a grande maioria (85%) considera que os profissionais de saúde têm responsabilidade em tornar as vacinas menos dolorosas. Há inclusive estudos que estimam que 25% dos adultos têm medo de agulhas, sendo que a maioria a desenvolveram durante a infância! Assim, se negligenciarmos completamente a dor das crianças a quem são administradas vacinas injetáveis podemos influenciar negativamente a adesão a vacinas futuras. Essa atitude além de pôr em risco a proteção individual, pode ter impacto negativo na criação de imunidade de grupo (Pode ler mais sobre vacinas em: “Porque devemos vacinar os nossos filhos sem hesitar” e “Vacinas extra plano – uma ajuda para os pais indecisos!“).

 

Por isso, é importante o conhecimento de estratégias para diminuir a dor ou sua perceção de forma a aumentar o conforto da criança e família e aumentar a adesão à vacinação futura. Essas estratégias são seguras, eficazes e não requerem planeamento ou recursos adicionais de tempo, material ou custos, pelo que deve ser motivada a sua implementação.

 

Eis algumas estratégias:

1.Quem deve estar presente?

Para bebés e crianças pequenas os pais devem estar presentes durante e após a administração das vacinas

 

2. Posicionamento durante administração de vacinas

Bebés e crianças pequenas (com idade inferior a 3 anos) devem ser seguradas ao colo pelos cuidadores.

Crianças maiores (idade igual ou superior a 3 anos) e adolescentes devem estar sentadas.

 

3. Técnica de administração da vacina

Não se deve fazer aspiração prévia antes da administração de vacinas intramusculares.

 

4. Ordem de administração de vacinas

Se numa mesma visita médica forem administradas mais do que uma vacina, a ordem de administração deverá ser da vacina menos dolorosa para a mais dolorosa. No caso de haver necessidade de administração de vacina oral, essa deverá ser a primeira, seguida das vacinas injetáveis.

No caso de se desconhecer o “gradiente de dor” das vacinas, a sua administração deverá ser na ordem que o profissional de saúde determinar com base na sua experiência.

 

5. “Mamanalgesia”

A amamentação prévia e durante a vacinação é uma medida comprovada de redução da perceção de dor por parte dos bebés. É recomendado que a pega adequada seja estabelecida antes da injeção, o que pode demorar cerca de um minuto.

Quais as vantagens da amamentação como estatégia para redução da dor?

Tal como documentado por diversos autores é uma estratégia natural, facilmente disponível, fácil de usar e livre de intervenção que pode ser facilmente adotada pelos prestadores de cuidados de saúde e pais.  Não tem custos e é a técnica ideal a ser utilizada em ambientes de cuidados de saúde primários.

Porquê? Parece que  engloba três componentes confortáveis e analgésicos para as crianças: o paladar, a sucção e o contato pele com pele. Nas Orientações técnicas sobre o controlo da dor em procedimentos invasivos nas crianças (1 mês a 18 anos) a DGS (2012) recomenda “Colocar o lactente ao seio materno antes e durante o procedimento, mantendo-o durante alguns minutos após o final.” E parece que as propriedades analgésicas do leite materno não ficam por aqui… Parece que o leite materno contém substâncias  com propriedades analgésicas ou que podem ser convertidas em endorfinas. Para além disto, o leite materno tem um papel no reforço da eficiência da própria vacina. Inúmeras vantagens, certo?

Parece não existir evidência de maior risco de engasgamento ou regurgitação com esta medida. Pode, nalgumas situações, haver o receio por parte da mãe de que o bebé associe a amamentação à dor percecionada com a vacinação. Mas, tendo em conta que a amamentação é muito frequente e regular nos primeiros meses de vida e que a vacinação é esporádica, parece não existir esse risco.

Como implementar esta estratégia?

Para obter melhores resultados com esta medida, inicie a amamentação 2-5 minutos antes da injeção. Se for necessário mais do que uma injeção em diferentes coxas deve colocar o bebé na outra mama. Antes da administração da vacina na outra coxa certifique-se que o bebé esteja a mamar com pega adequada (o que pode demorar cerca de 1 minuto).

 

6. Técnicas de distração

Podem ser usadas em crianças com idade inferior a 6 anos, como brinquedos, músicas, vídeos, conversar com um adulto.

 

7. Medidas não recomendadas

  • Não está recomendada a aplicação de anestésicos tópicos, embora possam ser eficazes;
  • Não está recomendado o aquecimento prévio das vacinas;
  • Estimulação manual (tipo esfregar) previamente o local de administração da vacina (controverso);
  • Administração de analgésicos antes ou durante a vacinação. Contudo, se após a administração da vacina a criança estiver com dor, numa intensidade que não responde a todas as medidas não farmacológicas atrás descritas ou até apresentar febre, os analgésicos podem ser administrados.

 

Apesar desta última recomendação da OMS, a DGS recomenda até aos 24 meses de idade,  a administração de paracetamol na dose recomendada para a idade, prévia à administração da vacina contra Neisseria meningitidis do grupo B (Bexsero®) com o objetivo de prevenir ou diminuir a febre possivelmente associada a esta vacina (leia mais sobre vacinas extra plano aqui.).

 

E por aqui como tem sido?

O Pedrinho detesta a hora da vacina e eu também. A “mamanalgesia” deixou de funcionar desde os 6 meses. Em alternativa insistimos nas técnicas de distração. Como gosta muito de bolas levei 2 na administração do reforço da Bexsero®. E resultou! Entre os 6 e 12 meses resultou muito cantar para ele. Eles vão crescendo e nós só temos que nos adaptar! Ter por perto o nosso enfermeiro (leia mais no artigo “Obrigada a todos os enfermeiros“) ou médico sabe bem.

E por aí? Qual a vossa experiência? Que técnicas usam para distrair os vossos filhos na hora das vacinas? Aceito tudo de bom grado pois por aqui estou em contagem decrescente para as vacinas dos 18 meses…

 

Beijinho e obrigada por me lerem e seguirem

 

 

Referências bibliográficas:

.Galvão D., Pedroso R., Ramalho S.. Intervenções não farmacológicas de redução da dor em uso na vacinação de lactentes. International Journal of Developmental and Educational Psychology, Nº1-Vol.1, 2015.

-Direção Geral de Saúde. Orientações técnicas sobre o controlo da dor em procedimentos invasivos nas crianças (1 mês a 18 anos). 2012. Acesso em: https://www.dgs.pt/paginas-de-sistema/saude-de-a-a-z/programa-nacional-de-controlo-da-dor/orientacoes-tecnicas.aspx

-http://www.aleitamento.com/amamentacao/conteudo.asp?cod=2382, acesso a 2 de Outubro de 2018;

-World Health Organization, acesso em http://www.who.int/immunization/policy/position_papers/reducing_pain_vaccination/en/, a 2 de Outubro de 2018

-Direção Geral de Saúde. Vacinação contra Neisseria meningitidis do grupo B de grupos com risco acrescido para doença invasiva meningocócica (DIM). 2016.

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